No princípio era o oco, e oco era o peito das criaturas que habitavam o mundo. Um mundo recém criado regido pela lei das palavras que o dava as formas pouco a pouco. As possibilidades são infinitas quando se tem a imaginação de uma criança. Ele era uma CRIAnça, de idade e imaginação imensuráveis para a nossa restrita compreensão.
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Mas faltava algo. Ele sabia disso. Sentia que havia qualquer coisa de oco no mundo e isso o preocupava profundamente. Era como um mundo de brinquedo que só existia na imaginação e não na realidade. Assim, Ele aninhou todos em suas camas, cantou até adormecê-los e saiu para caminhar e clarear as idéias.
Perto de algum lugar aonde ia, encontrou em uma caixa de areia, Outra igual a ele. Outra CRIAnça a imaginar um mundo regido pelas palavras que proferia delicadamente, no ritmo do vento que balançava as árvores em um dia de verão do mundo Dele. Ele parou e observervou-a.
A areia da caixa escorria eternamente por uma nascente infinita. A Criadora sorriu e chamou aqueles grãos de Tempo. O Tempo, porém, não parou, não mudou de forma nem de aspecto. Apenas continuou seu eterno escoamento pelas mãos Dela. De vez em quando, espalmava os grãos de areia para fora da caixa, salpicando no Infinito pitadas de luz aos quais chamou de estrelas. As estrelas então, feitas de Tempo, iluminaram o recanto em que Ela trabalhava.
Em seguida, a Criadora separou um punhadinho de areia e soprou em cima. Imediatamente surgiu entre suas mãos uma criatura de asas para a qual entregou um saquinho de pano que retirara do bolso e a ordenou que semeasse o mundo Dela. A criatura assentiu e sumiu.
- O que está fazendo aí parado? perguntou Ela dirigindo-se à Ele.
- Apenas observo a vida. respondeu . Há algo que falta para meu mundo ser completo.
- Sei o que falta. disse aproximando-se Dele com mais um montinho de areia nas mãos.
Entre os dedos, Ela modelava o áureo sentimento que conquistaria a humanidade para sempre.
- Isto aqui preenche tudo o que é oco por dentro. Quis chamá-lo de Amor. Amor é como chamam uns e outros. Estou precisando fazer mais e por isso posso ensiná-lo, se desejar.
- Claro, quero muito fazer Amor com você. Acho que só isto me dará a vida que preciso para fazer florescer meu mundo.
Ela sorriu sem dizer nada e puxou-o pela mão. Deitaram-se da caixa de areia e ficaram observando o Tempo correr. Quando já estavam velhos, Ela se aproximou Dele olhando-o nos olhos e tirou um beijo da boca. Ele imitou-a, tirando um beijo da boca dele. Em seguida, Ela salpicou grãos do Tempo no beijo dos dois.
- É para nosso Amor crescer e amadurecer. Explicou. Mas não se deve colocar muito para não passar do ponto e apodrecer.
Ele entendeu. O Tempo que deixaram escorrer deitados juntos o fez compreender melhor as coisas.
- Agora tire um pequeno pedaço do seu coração e uma lembrança boa da cabeça. Sei que dói um pouco, mas vale a pena. Mesmo quando o Amor apodrece, vale a pena. Dá pra sentir uma dor enorme quando se sabe que algo vai valer a pena um dia. Pode confiar. – Ela disse.
Embora hesitante, ele fez como o ordenado. Doeu. Mas não reclamou.
Modelaram, então, essa mistura. Ela gostava das formas mais voláteis e Ele das formas mais delicadas. Por fim, sopraram. Ele percebeu que Ela estava certa afinal. E assim o Amor do mundo Dele foi feito para mudar os rumos de nossa existência para sempre.
Amanda Alboino (me)







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