10/09/2011

[Conto] Transitação

Postado por Amanda Alboino às 19:34

Verde. Parou. Amarelo. Esperou. Vermelho. Seguiu. Um homem do outro lado da calçada lhe entregou um daqueles malditos panfletos. Ela amassou sem nem olhar. Já sabia do que se tratava. Recebera montes dele.

Os ventos frios de setembro arrastavam a poeira dos carros para seus olhos e levavam o calor de seu corpo. Olhos úmidos e mãos geladas. Verde. Dirigiu-se ao ponto de táxi. O dia já fora cansativo demais para pegar um coletivo. Amarelo. Pessoas ao redor gargalhando, sorrindo, tristes, enfadonhas. Odiava todas. Vermelho. A mente vagueando por lembranças do seu novo futuro.

Verde. O carro partiu pelas ruas infestadas de mal humor. O tempo tem essa mania de passar depressa só quando lhe convém. Amarelo. Era uma vez uma mulher feliz. Aí vieram as promessas e fudeu com tudo. Vermelho.

Em seu celular, mensagens subiam freneticamente para seu perfil. Na rádio, outra cantava suas angústias para o público aplaudir indiferente. As interpretações são sempre vazias de realidade. Verde. A maior parte das interpretações dela tinha, na verdade, um sentido completamente diferente do que julgara. Amarelo. Não se pode culpar alguém por ser burro, mas por ser ingênuo, sim. Vermelho.

Adele nos ouvidos. A noite só havia começado. Verde. Os outdoors sorriam, debochando. Queria queimar todos eles para tirá-los de seus olhos. Amarelo. Ele se estampava em suas idéias. Filho da mãe. Vermelho.

Foda-se a originalidade, foda-se a perfeição, fodam-se os aplausos. Aquilo nunca foi de verdade. Verde. O carro estacionou em frente a seu refúgio. Ela jogou umas notas para o motorista e desceu. Desceria ainda mais fundo se não achasse aquilo tudo ridículo. Tirou os sapatos para sentir o chão frio naquele calor que sentia por dentro e ligou o abajur. Amarelo. A secretária eletrônica piscava, indicando 5 novas mensagens. Ela apagou todas sem ouvir. Já ouvira tudo aquilo. Vermelho.

Foi para a cozinha preparar um chá enquanto pensava em seu próximo passo. Olhava, distraída, as folhas perdendo a cor para a água quente. Verde. Não imaginava que tudo terminaria desse jeito. A seu lado, na pia, cacos da garrafa de cerveja comemorada no dia anterior. Amarelo. O pedaço frio de vidro no pescoço foi mais rápido do que sua mente doentia. A cozinha agora estava infestada dela. Alguém ia ter que limpar depois. Vermelho.

Escrito por: Me

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