Epifania
Sabe aqueles dias em que tudo está bem, mas de repente algo acontece rapidamente e te faz ficar reflexivo o resto do dia?
Acontece que tinha acabado de sair de um amigo secreto super divertido e resolvi comprar uma água num supermercado. Estava tudo bem, eu estava na fila. A bobina do caixa acabou. Aquelas horas que você para por um instante e pensa logo “pôxa, ô sorte a minha chegar num caixa justo quando a bobina acaba! Vou ter que esperar uns cinco minutos pra ele desenrolar as coisas”, mas como esse pensamento de imediato me pareceu egoísta, parei e esperei pacientemente o moço do caixa fazer o que tinha que fazer e passar as compras da pessoa à minha frente.
Chegou minha vez e tive a brilhante ideia de deixar as moedas que eu ia pagar a garrafa de água na esteira rolante de compras. Resultado: a esteira, que funcionava por meio de um sensor, foi rodando sem parar até que vi, num momento aflito, minhas moedas passarem por baixo da esteira até sabe-onde-lá-iam-parar.
Não que eu seja pão dura, mas o final de ano não está sendo fácil para ninguém, não podia perder três reais assim, sem mais nem menos.
Rapidamente o moço do caixa me advertiu que as moedas provavelmente teriam caído no chão, mas quando me abaixei para pegar percebi que havia uma lata de lixo justo em baixo de onde as moedas haviam caído.
Não pensei muito e enfiei logo minha mão na lata tentando recuperar minhas suadas moedas da bolsa da faculdade. Na lata, havia copos de plástico, restos de embalagens e coisas assim e eu ali catando as moedas no lixo. Só então eu percebi o que estava fazendo. Eu estava agachada procurando moedas numa lata de lixo, e a fila atrás de mim crescendo e observando o que eu estava fazendo. Me senti um pouco envergonhada, talvez pelo valor irrisório que eu estava tentando conseguir de toda forma. Dos três reais, recuperei dois, paguei pela água e saí do supermercado sem olhar para trás.
Trânsito
Comecei a pensar nas coisas que as pessoas fazem por necessidade. Para complementar minha reflexão (nesse momento meu astral já estava baixo), alguém comentou que detestava ver carros no trânsito com apenas uma pessoa dentro. “Por que não pegam ônibus? Ia diminuir o trânsito!”. Isso me deixou irritada pela simplicidade do comentário e pela cadeia de formulações que vieram à minha cabeça imediatamente.
- No Brasil o estímulo de compras de carros é tão grande que a hipocrisia de mobilidade urbana dá nojo.
- Obviamente me lembrei da tentativa do Ministro da Fazenda de retirar a obrigatoriedade de freios ABS e airbags para baratear o preço dos carros e fazer estimular que as pessoas comprem MAIS CARROS. Algo como “tudo bem que continuem os acidentes de trânsito, desde que as pessoas não parem de comprar carros”.
- Além do fator cultural de carro = status, a deficiência de um sistema de transporte que funcione leva muitas pessoas a se sacrificarem em comprar carros e a mantê-los com combustíveis cada vez mais caros.
A raiva, portanto, não deveria ser direcionada às pessoas que tem carro, mas especialmente às empresas de ônibus que estão se lixando para colocar mais ônibus nas ruas, ou ao governo de continuar incentivando a compra de mais e mais carros ou até mesmo da novela em que pegar ônibus “é coisa de pobre”.
Garanto que se esse sistema funcionasse, muitos trocariam os 200 reais por mês em gasolina por 80 reais por mês em transporte público. Óbvio: cada um tem que fazer a sua parte e buscar, sempre que possível, deixar o carro em casa. Políticas de mobilidade, planejamento urbano e campanhas de conscientização também não cairiam mal.
Um professor uma vez me disse: “o problema do trânsito não está em as pessoas comprarem carros, nem muito menos sentir raiva das pessoas que compram, mas em como essas pessoas usam esses carros no dia a dia”. Acho que é por aí mesmo.
Chapéus ridículos
Há muito tempo, quando estava no Beach Park voltando de um passeio da escola, passamos por uma barraca onde havia funcionários do parque usando chapéus de foca (a clássica foca do Beach Park). Observando os chapéus, um amigo comentou “Nossa, olha só que ridículo aquilo ali, nunca usaria um negócio desses”. Parei por um momento, sem acreditar no que eu ouvira.
Imediatamente respondi “Cara, não acho que essas pessoas usem esse chapéu porque gostem. Se fosse você que precisasse desse emprego, você usaria esse chapéu sem nem pensar duas vezes”. Meu amigo ficou sem graça.
Muitas vezes em meu círculo, costuma-se falar em alcançar o emprego dos sonhos e ser feliz tendo uma vida maravilhosa com a profissão que escolheu e até sentir pena de quem se levanta todos os dias para ir a um trabalho que odeia.
Às vezes, o trabalho que a pessoa odeia pode muito bem ser compensado pelo sorriso do filho ao ver o pai/mãe, voltar pra casa com um saco de pão.
Amo a profissão que escolhi, mas se um dia eu tiver uma família e ver que não estou podendo sustentá-la na minha área de atuação, eu procuraria por outra, sem sombra de dúvidas. Usaria mesmo um chapéu de foca todos os dias se fosse para ver minha família bem. Minha realização pessoal, portanto, se deslocaria da minha carreira, para a minha família.
E, vamos ser sinceros: hoje em dia só em ter um emprego honesto, já é uma grande conquista. Semana passada, fui à manicure e ela me contou que trabalha 7 dias por semana de 8h às 22h, inclusive em feriados para conseguir 1.500 reais por mês. Contou também que o filho sofreu um trauma no crânio e todo o horror que viu no Instituto José Frota para conseguir uma ressonância. A vida é bastante difícil para quem não nasceu na classe média, nem na Aldeota.
Supermercados
Quando eu sinto muita fome, normalmente esqueço das etiquetas sociais. Minha cabeça dói tanto que a única coisa que eu penso é em chegar rapidamente a algum lugar com comida. Mas eu posso comprar comida quando eu tiver fome. E quem não pode?
Alguém já parou pra pensar como os mendigos conseguem entrar em um supermercado para comprar algo pra comer? A resposta é: não entram. Não descalços, não sujos, não com o cheiro de suor e poeira deles. Não deixam.
O ser humano é uma criatura arrogante o suficiente para esquecer que também é um animal. Animais sentem fome. Animais sentem frio. E quando sentem isso, fazem coisas que não imaginamos que fariam: como roubar ou machucar outros da mesma espécie.
Quando tem dinheiro, algumas gastam com algo barato, que engane a fome e as tire por um momento da realidade hostil com elas.
Existem milhões de formas de encarar essas situações. Essas são só algumas delas.
***
Na verdade, eu sou apenas um animal que teve a sorte de escolher meu destino dentre tantos outros que não tiveram. Na verdade, sinto vergonha por ter me envergonhado em catar moedas no lixo.
22/12/2013
Epifania, Trânsito, Chapéus ridículos e Supermercados
Assinar:
Postar comentários (Atom)




0 comentários:
Postar um comentário
Obrigada pelo seu comentário!!!